Ele é hacker, tem relações familiares conturbadas, já foi preso mais de uma vez e é considerado o inimigo público número 1 do Estado moderno. Já o outro, também é hacker, filho de dentista, família estruturada e estudou em Harvard. As distintas trajetórias desses dois homens os levaram a um ponto em comum: ambos são personalidades do ano pela Times. O primeiro é Mark Zuckerberg, escolhido pelo corpo editorial da revista. O segundo é Julian Assange, escolhido pelo voto popular.
A revista que já elegeu Hitler, Stalin, Bush (pai e filho), elege agora Mark Zuckerberg, criador do Facebook. Mas sejamos justos: a Times também já fez boas escolhas, como em 2003 quando elegeu “Você” como personalidade do ano. Porém, precismos lembrar qual o critério utilizado pela revista norte-americana. Consta na Wikipedia que a escolha se dá pela influência: “para melhor ou para pior… quem mais exerceu influência nos acontecimentos do ano” é escolhido.
O sonho de Zuckerberg
Muitas empresas já se ofereceram para comprar o Facebook de Zuckerberg. Uma delas, a Microsoft, chegou a oferecer US$ 15 bilhões. O nerd recusou sem nem pensar muito. O motivo, segundo ele, é simples:
“Não é por causa da quantidade de dinheiro. Para mim e meus amigos, a coisa mais importante é criar um fluxo aberto de informação para as pessoas. Ter um conglomerado detendo diversas corporações de mídia não é uma ideia atrativa para mim” Fonte: Wikipedia
Mark sonha com a liberdade e transparência. Assange também. O que faz com que Mark esteja milionário e Assange preso?
O calvário de Assange
O conceito de liberdade e transparência dos dois nerds é bem parecido. Mas enquanto o de Zuckerberg se aplica a vida privada, o de Assange se aplica a vida pública. Aqui temos a inversão de papéis e entendemos o porquê do sucesso de um e do calvário do outro.
Tornar a vida privada objeto de transparência total pode se traduzir em controle e vigilância. O sonho de Zuckerberg, nesse sentido, pode então ser a mais poderosa arma de controle social para o poder público e investimento social para o capitalismo. Você pode saber tudo sobre as pessoas através do Facebook.
Publiquei em outra ocasião um post sobre controle e vigilantismo na web 2.0. O post trazia uma entrevista com Eben Moglen, professor de Direito da Universidade de Columbia. Recomendo a leitura na íntegra do post, mas a parte que mais nos interessa é o papel das redes sociais nessa coisa de vigilância. Segundo Moglen, o negócio das redes sociais (e aqui o Facebook é a empresa mais bem sucedida) é a espionagem deliberada. Calma, não é teoria da conspiração. O professor nos alerta que a informação é a moeda mais valiosa para o capitalismo do século 21. Nesse sentido, “A forma que encontraram de ganhar acesso à vida privada é oferecer páginas gratuitas e alguns aplicativos. É uma péssima troca para o usuário – degenera a integridade da pessoa humana. É como viver num regime totalitário”.
Assange inverte essa lógica. Aponta para o terreno do poder público os faróis da liberdade e transparência com seu WikiLeaks (que trazem embutidos o controle e a vigilância). Oras, o Estado não quer ser vigiado pela sociedade civil. Nunca quis. Por isso, a cabeça de Assange foi a prêmio e acabou sendo preso e condenado por outro crime (abuso sexual e estupro) para silenciá-lo.
Claro que não deu muito certo. Vocês conhecem a história. A prisão de Assange desencadeou uma onda de contra-ataques a todos serviços que cortaram relações com o wikileaks. O Paypal, por exemplo, sofreu o que foi chamado de “payback” – pessoas de todo o mundo incentivaram clientes do Paypal a retirarem seus investimentos do serviço a fim de prejudicá-lo. Esse fato junto a outros, desencadeou o que foi considerado a primeira ciberwar do mundo, que está acontecendo agora mesmo.
Liberdade, controle e vigilância
Zuckerberg e Assange serem considerados personalidades do ano pela Time prepara um perigoso terreno para 2011. Se os nerds foram os homens do ano, “liberdade” foi a palavra. E em 2011, é bem provável que os discursos em torno dessa expressão ganhem dimensões nunca antes vistas. A capa da Time desta vez revela o que está por vir, não o que se passou.
Torçamos e lutemos para que em 2011, “liberdade” seja a personalidade do ano. Pois há chances de vermos estampado na Time as palavras “censura e controle”.